O post a seguir foi uma dica do professor Guilherme na banca do preTFG, fui pesquisar e gostei muito da matéria. É uma matéria da Revista AU, de janeiro de 2009 sobre a arquitetura escolar.
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Especial Escolas
Permeabilidade à luzProjeto de escola pública na cidade de Várzea Paulista é baseado na composição de vazios que invadem e arejam a matéria densa do concreto
Por Simone Sayegh Fotos Nelson Kon
Permeabilidade à luzProjeto de escola pública na cidade de Várzea Paulista é baseado na composição de vazios que invadem e arejam a matéria densa do concretoPor Simone Sayegh Fotos Nelson Kon
Mais do que a arquitetura que produziu, Vilanova Artigas deixou exemplos dentro e fora da sala de aula - as quais ele literalmente redesenhou, em um sentido que extrapola os limites de seus extensos panos de cobertura de concreto aparente e dramáticos pontos de apoio. Artigas acreditava na influência formativa da escola na sociedade. E em projetos como o Ginásio de Itanhaém, 1959, o de Guarulhos, 1960, e o bem-sucedido projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, de 1961, deixa transparecer o pensamento utópico da integração e liberdade, ao articular diferentes atividades sob o mesmo teto.
A partir da década de 1960 sua influência na arquitetura escolar paulista se faz sentir em gerações de arquitetos formados dentro dos generosos espaços da FAUUSP. E alguns deles também experimentam o caminho de servir ao ensino público. É o caso dos amigos Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz, sócios do escritório paulista FGMF. Dessa vez o convite veio da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), órgão responsável por viabilizar a execução das políticas educacionais definidas pela secretaria da educação do Estado de São Paulo. O projeto, uma escola para o município de Várzea Paulista, perto de Jundiaí, São Paulo.
A escola de 2,7 mil m², com térreo mais dois pavimentos, ergue-se inteiramente em pré-moldado de concreto, que foi deixado aparente em toda a sua robustez. "A FDE é bem rígida com relação ao sistema estrutural, e vem restringindo o uso de outros materiais fora do catálogo deles", explica Lourenço Gimenes.
Para contornar a aparência pesada do material, a envoltória exime-se de sua função básica de fechamento estanque, e não desempenha um limite preciso entre externo e interno. Essa característica é reforçada pelo descolamento das fachadas principais, que se expandem além do volume que abriga o programa, por meio da continuidade das vigas de cobertura. "Nós manipulamos as dimensões previstas para a estrutura e a descolamos", explica Fernando Forte.
Esse sistema estrutural permitiu a formação de gradientes de transparência, verdadeiros vazios preenchidos por luz. "Procuramos dar à obra uma leveza que aparentemente o sistema construtivo não tem", completa Gimenes. Além da configuração estrutural, os elementos que compõem as duas fachadas longitudinais reforçam a permeabilidade visual. A fachada de maior insolação, voltada para a rua de acesso, é composta por elementos vazados, modulados de maneira a formar um desenho movimentado que, de dia, filtra a luz externa e, de noite, a interna.
De dia, para quem está dentro do prédio, o limite entre a rua e a escola praticamente não existe. De noite, é quem está fora que com apenas um olhar alcança os espaços internos. Essa solução revela a já mítica ideia de integração entre escola e comunidade, pauta eterna de discussão de educadores e sociólogos. A construção do conhecimento além da sala de aula envolve também o olhar responsável ao todo que nos cerca, ao nosso vizinho, ao muro de nossa escola. E quando o muro não existe, expandem-se nossas possibilidades.
O terreno de cerca de seis mil m² tinha um aclive acentuado e algumas interferências, como taludes. O talude superior foi pouco mexido, já o inferior foi bastante modificado, com a inserção de uma berma para resolver a questão das águas pluviais. A implantação no terreno retangular se faz na cota média, 6 m acima do nível da rua de acesso, e de maneira longitudinal. Mesmo assim, o volume principal da escola extrapola os limites do solo nivelado e avança sob uma laje de piso sustentada por pilotis. O acesso principal é descoberto, onde alunos, mães e professores interagem em uma área semipública. Na porção direita, um estacionamento, à frente, a quadra coberta. Em continuidade ao espaço livre, a convivência dos alunos é feita em um galpão central de pé-direito duplo, principal elemento organizador do programa. O volume da escola posiciona-se à volta e acima desse vazio essencial. É o pátio coberto por excelência, onde os limites laterais são totalmente diluídos devido à quase ausência de fechamentos.
Do lado do pátio, o descolamento da fachada se manifesta na abertura zenital que percorre toda a extensão longitudinal, e encontra um fechamento lateral constituído de telhas metálicas perfuradas que, assim como os elementos vazados, permitem a entrada de ar e luz.
Além do volume semifechado, uma área externa de recreio envolve o volume construído e se estende até os limites do talude superior. No piso, uma permissão especial da FDE: faixas de mosaico português caminham desalinhadas por toda a extensão cimentada que recobre a laje de piso, exceção feita à quadra. O desenho das linhas, quase ao acaso, entra em contraposição com a ortogonalidade e a linearidade da estrutura, e reforça a continuidade dos espaços.
"Tiramos partido da sistematização do pré-moldado e criamos espaços livres e continuados", explica Rodrigo Marcondes Ferraz. O programa do térreo compreende salas administrativas, banheiros, refeitório e quadra de esportes. Esta última, abrigada em um bloco desalinhado do volume principal, fechado lateralmente por uma grande empena azul. Ainda que mais estanque que o resto dos espaços, a ligação com o galpão principal é mantida por uma divisória de elementos vazados. A cobertura resolve-se com um misto de telhas opacas e translúcidas.
No primeiro pavimento, em um mezanino voltado para o galpão, alinham-se as salas especiais e de uso múltiplo, e no segundo pavimento, dez salas de aula organizam-se paralelas. O piso aí muda: a área passa a ser revestida de peças cerâmicas. As duas escadas de circulação permitem livre visão do entorno, ora estrutura, ora elemento vazado e cidade. Dentro das salas, as janelas voltam-se para o externo, mas a visão é sempre filtrada pela materialidade da escola: de um lado, elementos vazados, de outro, telhas perfuradas. "Os elementos vazados compõem a percepção que os alunos têm da paisagem", explica Marcondes Ferraz.


Além do concreto aparente, cores: amarelo nas salas de aula e azul na quadra, exigência da FDE. No conjunto, a escola do escritório FGMF expande-se além da racionalidade estipulada pelo FDE e organizada pela estrutura até acintosa dos pré-moldados de concreto. É a respiração livre necessária para viver o aprendizado.


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O projeto apresentado pela revista é fantástico, sempre tive uma tendência a utilizar elementos vazados para constituir a fachada da escola, tanto pela permeablidade visual quanto pela ventilação e os responsáveis por esse projeto o fizeram muito bem.
Outro aspecto interessante e que me tendencia é a questão de tomar partido da estrutura como elemento principal e eles relatam que isso foi determinante para a concepção dos espaços.
Muito bom!









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